Sinceridade x Autenticidade

Você acha que Xuxa foi sincera ou não? Há exatos 40 anos, um crítico de literatura americano chamado Lionel Trilling (1905 – 1975) propôs uma distinção interessante entre dois valores aparentemente muito próximos: sinceridade e autenticidade. Ambos, segundo Trilling, refletem a moralidade de épocas diferentes. A ideia de que as pessoas deveriam ser sinceras, ou seja, fiéis a uma verdade interior, desenvolveu-se a partir do romantismo e perdeu prestígio ao longo do século passado, na medida em que foi ficando cada vez mais difícil acreditar tanto nas verdades únicas quanto na capacidade de expressá-las.

Na teoria literária de Trilling, a sinceridade era o ideal dos personagens românticos, que perseguiam a correspondência perfeita entre uma motivação interna e as ações no mundo exterior. Faria sentido falar da sinceridade dos personagens de Jane Austen ou Charles Dickens, por exemplo, mas não de uma heroína de uma tragédia grega ou de um personagem de Beckett.

A autenticidade, por sua vez, é uma demanda da modernidade e implica admitirmos que nem sempre uma verdade única e absoluta esconde-se atrás dos nossos gestos e palavras (valeu, Dr. Freud). Uma mesma pessoa pode ser levada a agir por diferentes motivações.

Ser “autêntico” significa agir de acordo com a verdade que se impõe em determinada situação – o que, claro, torna tudo muito mais difícil de julgar para quem está de fora. Políticos, com certa frequência, nos deixam confusos: quando votam contra a própria vontade (uma verdade interna) para obedecer a uma orientação do partido (uma verdade acordada) estão agindo de forma honesta ou não?

Uma pessoa e um país estão o tempo todo renovando sua identidade e suas “verdades”. As tradições gaúchas, por exemplo, podem ser autênticas ou não, na medida em que as pessoas se sintam ou não representadas por elas. A alma romântica dirá que existe um único passado gaúcho a ser cultuado e celebrado. A alma moderna dirá que o tradicionalismo é apenas uma das representações possíveis da gauchidade.

Mesmo que a maioria de nós já não consiga acreditar 100% nos outros (ou em si mesmos), a sinceridade permanece como um ideal romântico que se coloca em cena de tempos em tempos, principalmente em relação a pessoas públicas. Na semana que passou, o Brasil assistiu a um curioso debate sobre a sinceridade de Xuxa durante uma entrevista concedida ao Fantástico. Mas será mesmo possível cobrar sinceridade de uma pessoa quando ela está falando para milhões de desconhecidos?

Da Xuxa, assim como dos políticos, talvez seja mais realista, e útil, perguntar-se sobre as diferentes motivações que atendem quando se esforçam para parecer sinceros.

Brasil Cabecao

Se os japoneses batizassem um programa de governo de Japão Disciplinado ou os Estados Unidos criassem uma campanha chamada América pelo Consumismo, ia soar como se uma febre pleonástica tivesse acometido o Primeiro Mundo. Foi mais ou menos essa a sensação que eu tive ao ouvir o nome do novo programa de combate à miséria do governo federal: Brasil Carinhoso.

Coração é o que não nos falta, a gente sabe. Nos anos 30, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (o sogro dos sonhos de nove entre 10 brasileiras) cunhou uma expressão que até hoje é mal entendida e mal citada. Seu “homem cordial” não é o sujeito bonzinho que sempre tem uma palavra gentil na ponta da língua e ajuda velhinhas a atravessar a rua.

A cordialidade brasileira que o sociólogo descreve não é a do bom coração e da hospitalidade, mas a do domínio da emoção sobre a razão, que pode causar tanto as efusões amorosas mais comoventes quanto as reações mais violentas e intempestivas – não por acaso, esse país tão cheio de amor para dar é também campeão nas estatísticas de violência contra a mulher.

O homem cordial clássico, de catálogo, é aquele que odeia formalidades, mesmo quando elas são criadas para organizar a vida de todo mundo, e ignora regras de ética e civilidade quando elas não lhe parecem 100% convenientes. Alguém aí reconheceu um brasileiro?

Quando um país com um largo histórico de populismo usa a palavra “carinhoso” em um programa de governo, arrepiam-se os pelos das nucas mais paranoicas. Não existe palavra tão doce na língua portuguesa quanto essa que dá nome a uma das mais belas canções da música popular brasileira, mas uma política que se autodenomina “carinhosa”, ainda que coberta de méritos, sempre parece firmar-se no terreno flácido das boas intenções e do paternalismo e não na arena sólida das instituições que têm continuidade e metas objetivas para além dos governos e dos políticos. Carinho a gente dá e a gente tira. É uma concessão, não um direito ou um dever.

Se o Brasil fosse levar a sério mesmo esse negócio de slogans motivacionais deveria criar programas com nomes como “Brasil Racional”, “Brasil Cumpridor de Prazos”, “Brasil: começo, meio e fim”.

Claro que não ia adiantar nada, como em geral não servem para nada slogans motivacionais postados no Facebook ou na porta da geladeira, mas talvez fosse mais útil reconhecer o que nos falta do que celebrar o que sempre tivemos de sobra. Realmente surpreendente seria se os estudantes brasileiros fossem brindados com um programa de educação tão sério e eficiente que algum gaiato resolvesse apelidar de “Brasil cabeção” .

Carinho, elas querem é da família. O que as crianças miseráveis do Brasil precisam, do Estado, é menos amor e mais confiança.

O lado certo da historia

Don Draper, o protagonista da série de TV americana Mad Men, é da geração do meu pai. É verdade que, nos anos 60, quando se passa a ação do seriado, meu pai era um sossegado gerente de loja em Porto Alegre, enquanto Don Draper vivia sua agitada rotina de casos e bons uísques em uma agência de publicidade de Nova York.

Descontado o fator glamour, porém, os dois são exemplares bonitões de uma mesma geração, a que cresceu nos austeros anos 30 e assistiu à revolução de comportamento dos anos 60 já acomodada no sofá e com filhos para criar (alguns deles, hoje fãs de Mad Men exatamente porque a série evoca a juventude dos seus pais).

Nunca os adultos foram tão diferentes dos adolescentes quanto naqueles anos em que a juventude, como estilo de vida e nicho de mercado, estava começando a ser inventada – e é o surgimento dessa desinteligência entre gerações que a série começa a retratar. Estamos no ano de 1966, e Don Draper acaba de completar 40 anos. Don é o cara: charmoso, bem-sucedido e capaz de traduzir o espírito da época em comerciais que vendem todo tipo de produtos.

Sua segunda mulher, na casa dos 20, sugere que ele escute Revolver, recém-lançado álbum dos Beatles, para que ele entenda do que todo mundo (com menos de 30) está falando. Don coloca o disco na vitrola, e escutamos a última faixa, Tomorrow Never Knows – uma viagem lisérgica de John Lennon que fala sobre desligar a mente, relaxar e “ouvir a cor dos sonhos”.

Em menos de três minutos, e sem que nenhuma palavra precise ser dita, percebemos que Don Draper, até então “o cara”, não entendeu nada – muito menos que aquela música, ousada demais até para os fãs, anunciava uma nova forma de sentir e pensar. O personagem ainda não sabe, mas acaba de ser ultrapassado pelos acontecimentos.

A História às vezes marcha tão lentamente que nada parece estar acontecendo. Às vezes, move-se aos saltos – e é sempre fascinante quando conseguimos perceber, a olho nu, que um vento realmente novo está soprando no ar. Na semana que passou, assistimos a um desses momentos que dividem a História entre antes e depois – e as opiniões entre contemporâneas e ultrapassadas.

Ao afirmar diante das câmeras que casais do mesmo sexo deveriam ter o direito de se casar, o presidente americano, Barack Obama, o primeiro nascido nos anos 60, levou a outro patamar uma discussão que, há menos de 20 anos, seria impensável em um contexto de campanha.

Os jornais ainda discutem se a decisão favorece ou não Obama na corrida eleitoral. A maioria concorda que não fará muita diferença, já que em meio à crise o que vai decidir as eleições é a economia e não as questões sociais. (O slogan da campanha democrata deste ano, não por acaso, é “Forward”: para frente, e para fora, da crise.) Para efeitos simbólicos, porém, não importa se Obama está com segundas ou terceiras intenções: o que vale é o gesto e o seu significado histórico.

O título de um editorial do jornal The Boston Globe resumiu o impacto da declaração, não sobre o resultado das eleições, mas sobre o futuro de uma ideia que, surpreendentemente, já não parece tão assustadora assim, nem mesmo para os republicanos: “Obama está do lado certo da História”.

Como nascem os pais

Observando casais com bebês recém-nascidos ou por chegar, é possível perceber como as mães tendem a ser parecidas umas com as outras, enquanto os pais seguem um padrão mais errático de comportamento, variando do envolvimento absoluto à mal disfarçada indiferença.

Mães de primeira viagem costumam ser muito pragmáticas – e previsíveis. Não que o lado subjetivo da maternidade não cobre algum reordenamento mental, mas são tantas as questões práticas a enfrentar naquelas primeiras semanas – alimentar, aquecer, aninhar –, que o resto parece ficar em segundo plano. O pai, por sua vez, é sempre uma revelação, um mistério a ser decifrado na medida em que a nova condição se impõe.

A forma como um homem lida com a paternidade é uma espécie de consolidação de uma mistura imponderável de uma série de variáveis, que vão da ideia de pai ideal que ele construiu ao longo da vida (ou não) ao investimento amoroso na mulher que está lhe dando um filho. Há pais quase mães, assim como há pais quase tios de segundo grau. Ambos orbitam no âmbito da “normalidade”, ou seja, um pai que nunca trocou uma fralda pode ser tão aceitável (ou estranho) quanto um pai que parou de trabalhar para cuidar do filho.

Nos casos de uma paternidade não desejada, ao homem é dada a opção de decidir se será um pai de fato ou de dever, já que a lei obriga que pague as contas de um filho comprovadamente seu – mas não mais do que isso. Em um país com uma arraigada cultura de abandono de filhos, o teste de DNA foi um avanço e tanto.

São tantas as histórias de pais que somem deixando para trás filhos nascidos dentro ou fora de um casamento, que é impossível a gente não se perguntar por que isso é tão comum aqui e não tanto em outros países com condições sociais e econômicas parecidas com as nossas.

Curiosamente, o mesmo país que naturalizou o “pai desconhecido” não quer nem ouvir falar em uma legislação que contemple a interrupção de uma gravidez indesejada. Na prática, a ambígua moralidade brasileira dá o seguinte recado para o mundo: mulheres têm a obrigação de ser mães, querendo ou não, enquanto os homens têm apenas o dever de pagar as contas – e isso se a lei os alcançar.

A decisão inédita do STJ de condenar um pai por “abandono afetivo” da filha, anunciada esta semana, abre a possibilidade de discutirmos as letras miúdas do contrato de paternidade. Pais podem dar bronca ou não, podem ensinar o filho a andar de bicicleta ou não, podem sustentar a família ou não. A paternidade ideal, ou possível, sempre será uma construção individual, tanto quanto a maternidade. Mas os compromissos de um pai ou de uma mãe com um filho nunca vão ser apenas materiais. Como lembrou a ministra Nancy Andrighi ao dar sentença esta semana, “amar é faculdade, cuidar é dever”.

Igualdade e diferenças

Há um desconforto incontornável com relação à política de cotas raciais nas universidades. Por um lado, as cotas obrigam o Brasil a admitir o apartheid soft que vigora em instituições universitárias (dou um doce para quem se formou na UFRGS com, digamos, 10% de colegas negros na turma). Por outro, as cotas são, em essência, uma confissão de fracasso: não conseguimos resolver nossos problemas de outro jeito, então vai como dá. Meritocracia é para quem pode.

Uma solução bem menos polêmica, mas muito mais complicada, seria corrigir as injustiças quando elas começam: na barriga da mãe (durante o pré-natal), na creche (quando ela é oferecida) ou na alfabetização, já que saúde e educação são, em tese, direitos garantidos pela Constituição.

Às vezes, quando prendem um gênio do tráfico que montou uma complexa rede de negócios aos 17 ou 18 anos, fico pensando que a derrota nesses casos é dupla: ganhamos um criminoso, desperdiçamos um moleque empreendedor.

Imagine um país em que os alunos com mais talento para o estudo pudessem ser identificados e valorizados desde cedo, onde quer que estivessem. Na Alemanha, uma sociedade muito mais homogênea do que a nossa, as diferenças entre os alunos são levadas em conta na hora de encaminhá-los para a vida acadêmica. Quando termina o primário, a criança começa a definir a sua orientação profissional conforme o desempenho dos primeiros anos.

Há três opções: a Hauptschule, em que os alunos são preparados para o ensino profissionalizante, a Realschule, que habilita a frequentar cursos superiores, e o Gymnasium, que propicia uma base mais avançada para a vida acadêmica. Há ricos e pobres em todos os níveis, em princípio (embora lá, como aqui, ricos tenham muito mais chances de driblar a falta de talento para os estudos do que os pobres).

O que o sistema alemão explicita é que há diferenças na aprendizagem, como em todas as habilidades humanas: há os com talento para ganhar dinheiro, há os que sabem lidar com pessoas, há os que são bons nos esportes, há os que vão revolucionar a física nuclear – e nem todos precisam estudar no mesmo lugar.

Vai bem o país que consegue oferecer as condições para que cada criança possa ser encaminhada a desenvolver (e identificar) seu potencial da melhor forma possível, independentemente de cor ou classe social.

Bom, esse é o sonho. Mas como é que a gente diz para um guri de 18 anos para esperar um pouquinho porque, quem sabe, daqui a 50 anos, se tudo mudar radicalmente agora, seu neto estará indo para a universidade por méritos próprios porque teve um ótimo ensino básico?

A melhor universidade brasileira, a USP, não está nem entre as 150 melhores do mundo. O país com mais universidades nesse ranking, os EUA, pratica ações afirmativas desde os anos 70. O Ensino Superior no Brasil é fraco e injusto há muito tempo (ou é justo a classe média estudar de graça e o pobre pagar?), e a culpa não é das cotas.

A maior metafora do mundo

Às vezes, um charuto é apenas um charuto. A célebre frase de Freud, o sujeito que inventou toda uma teoria para provar que uma coisa sempre pode significar outra coisa, ironiza o cacoete psicanalítico de perseguir sentidos ocultos em tudo.

Sim, é possível que um charuto, eventualmente, seja apenas um prazer inocente, mas o exercício de construir novos sentidos a partir da análise de um episódio histórico, de uma obra de arte ou mesmo de um gesto individual às vezes nos leva mais longe do que a mera análise objetiva dos fatos.

Quando os jornais da época noticiaram o naufrágio do Titanic, o dramático destino do transatlântico e de seus passageiros talvez ainda pudesse ser encarado apenas como fatalidade. Cem anos e centenas de músicas, livros e filmes depois, é impossível falar do Titanic sem revestir o episódio por camadas e mais camadas de sentidos submersos.

Em uma reportagem publicada esta semana na revista New Yorker, o jornalista Daniel Mendelsohn (não por acaso, um crítico especializado em tragédias gregas) tenta explicar por que o Titanic permanece fascinando as pessoas – apenas este ano, três dúzias de novos livros sobre o assunto estão chegando às prateleiras, além de minisséries, teses e de uma versão em 3D do filme de James Cameron.

A hipótese desenvolvida pelo jornalista é a de que o naufrágio do Titanic tornou-se uma espécie de imagem multiúso, eficiente para ilustrar diferentes ansiedades da modernidade. (Em 1999, o jornal satírico americano The Onion condensou essa ideia em uma manchete muito bem sacada: “Maior metáfora do mundo choca-se com um iceberg”.)

Temas como o embate entre o homem e a tecnologia, conflitos de classe, raça e gênero e principalmente a percepção genérica de que o mundo estava diante do “fim de uma era” encaixam-se à perfeição aos relatos sobre o colosso naval que nunca chegou ao seu destino.

O Titanic tem o timing de um blockbuster (2h40min entre o iceberg e o fundo do mar) e um nome que não seria melhor se tivesse sido criado por um escritor inspirado (os titãs eram criaturas magníficas que ousaram enfrentar os deuses do Olimpo – e perderam). Estão lá os personagens, as subtramas e os diálogos de uma tragédia, que se não tivesse acontecido provavelmente teria sido inventada. Cem anos depois, o iceberg derreteu – e o Titanic virou mito.

Pode-se encarar a votação desta semana no STF como um “charuto”: era aquilo e estamos conversados. Eu prefiro imaginar que, daqui a 20 ou 30 anos, a votação que permitiu o aborto de anencéfalos será lembrada não apenas como um marco histórico, mas como o início do fim de uma era. O fim da confusão entre convicções religiosas privadas e políticas públicas, o fim do silêncio e da hipocrisia.

Quem olhar com atenção vai ver que o iceberg já começou a derreter.

Cair do cavalo

Todo mundo um dia cai do cavalo, alguns literalmente inclusive. Cair do cavalo é perder o equilíbrio e o movimento ao mesmo tempo. É bater com toda a força no chão e em seguida ficar prostrado, incapaz de planejar o próximo movimento. Cair do cavalo dói não apenas pelo impacto em si, mas porque nos arranca do conforto da rotina. Paranoicos, hipocondríacos, precavidos, todo mundo cai do cavalo do mesmo jeito, ou seja, sem aviso prévio. E ninguém consegue evitar a perplexidade e a indignação ao verificar, na própria pele, um dos fatos mais banais da existência: coisas dão errado.

Se as tijoladas do destino são mais a regra do que a exceção, deveríamos estar mais preparados para lidar com doenças, separações, mortes, problemas de dinheiro, frustrações em geral – mas o fato é que nunca estamos. Somos comovedoramente ingênuos e distraídos, pelo menos até o primeiro grande tombo.

De volta à terra firme, quando já não há dúvida de que, enfim, sobrevivemos, cada pessoa elabora o sofrimento da forma que pode e sabe. Alguns naufragam na autopiedade, outros veem suas forças exauridas pelo próprio esforço de enfrentar a tormenta. Muitos sentem a necessidade de extrair sentido do sofrimento, atribuindo algum propósito à experiência e propondo a si mesmos uma espécie de jogo do (des)contente: sofri, mas aprendi. (Foi o caso, por exemplo, de Reynaldo Gianecchini, que em todas as entrevistas depois do fim do tratamento do câncer fez questão de falar sobre o lado transcendente da doença.) Há aqueles, porém, em que o sofrimento apenas acentua traços de personalidade que já existiam: o egoísta torna-se intratável, o tímido recolhe-se ainda mais, o extrovertido abusa da grandiloquência. (Lula, na primeira grande entrevista depois do fim do tratamento, falou da doença com a mesma ênfase barroca que usa para florear todos os assuntos, da economia internacional às derrotas do Corinthians: “Se eu perdesse a voz, estaria morto” ou “Estava recebendo uma Hiroshima dentro de mim”.)

O ensaísta francês Michel de Montaigne (1533-1592) também caiu do cavalo – concreta e metaforicamente – e essa experiência foi determinante para tudo o que ele viria a produzir depois. A tese é apresentada na deliciosa biografia do filósofo lançada há pouco no Brasil: Como Viver – Uma biografia em uma pergunta e vinte tentativas de respostas, da escritora inglesa Sarah Bakewell. O acidente quase fatal, sustenta a autora, ajudou Montaigne a desencanar das preocupações com o futuro e prestar mais atenção no presente e nele mesmo. Seus magníficos Ensaios, escritos nos 20 anos seguintes ao acidente, nada mais são do que a tentativa de ficar alerta às próprias sensações e experiências e buscar a paz de espírito – o “como viver” do título.

Para Montaigne, a vida é aquilo que acontece quando estamos fazendo outros planos, e nossa atenção tem que estar o tempo todo sendo reorientada para onde ela deveria estar: aqui e agora. Cair do cavalo pode ser inevitável, mas prestar atenção na paisagem é o que faz o passeio valer a pena.

Famoso quem?

Quem é a pessoa mais famosa do mundo? Digite isso no Google, e as respostas serão tão insólitas quanto divertidas: “Jesus, Bento 16 e Britney Spears”, “Deus, Michael Jackson, Beatles e Madonna”, “Oprah, Obama e Lady Gaga”.

Famoso pra quem, cara-pálida?, seria a resposta mais adequada. A maior surpresa da cerimônia de entrega do Grammy, realizada em fevereiro, não foram os muitos prêmios de Adele (conhece?), mas a multidão de internautas que durante a festa perguntava nas redes sociais quem era, afinal, aquele coroa sorridente que estava sendo homenageado no palco.

Ter feito parte da maior banda de rock do mundo e estar na ativa há mais de 50 anos queria dizer abacate para os fãs de Rihanna e Lady Gaga: Paul McCartney levou um sonoro e virtual “famoso quem?”.

Esta semana, aconteceu um fenômeno parecido aqui no Brasil nas horas que se seguiram à morte de Millôr Fernandes. Enquanto boa parte dos adultos letrados lamentava a perda de um dos pensadores mais lúcidos do Brasil, uma multidão de inocentes perguntava-se quem, diabos, era aquele sujeito bom de trocadilhos que andavam citando tanto no Twitter.

A movimentação foi tamanha, que um gaiato decidiu criar o blog quememillorfernandes.tumblr.com, reunindo manifestações do tipo: “Vei… Eu nem sabia quem era Millôr Fernandes, daí essa pessoa morre e vira gênio do nada!”.

Nossa primeira reação diante da ignorância alheia (principalmente com relação aos nossos ídolos) é amaldiçoar a estupidez humana e a corrupção dos tempos. Menos. Atire a primeira lápide quem nunca foi surpreendido pela consternação em torno da morte de um “famoso quem?”.

Todo mundo tem buracos negros em sua cultura geral – e quem acha que não tem provavelmente está mal informado. (“Não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora”, escreveu o próprio Millôr, mestre na arte de não se levar muito a sério.)

Diante de um fato que ilumina nossa vasta e espessa ignorância, temos duas atitudes possíveis: desprezar a nova informação (se eu não sei e os meus amigos não sabem, não faço muita questão de saber) ou procurar entender do que estão falando. Na era da superabundância de informação, porém, eleger prioridades tem se tornado cada vez mais difícil: cultura pop e cultura erudita, diversão e notícias, presente e passado, muitas vozes disputam nosso tempo e nossa atenção.

O sujeito que se orgulha de nunca ter ouvido falar de Millôr ou Paul McCartney pode desprezar quem é leigo em Bruno Mars ou Angry Birds (“Em que mundo você vive, macróbio alienado?”). Tanta informação disponível pode ser encarada com arrogância, por quem se convence de que já sabe tudo o que precisa saber, ou com angústia, por quem é permanentemente assolado pela sensação de que está perdendo alguma coisa.

Quem nunca ouviu falar de Millôr Fernandes pode ser digno tanto de pena quanto de inveja. Pena se perder a chance de dar-se ao trabalho (e ao prazer) de descobrir por que tanta gente gostava dele. Inveja porque só quem não o conhecia pode desfrutar o prazer irrepetível de ler Millôr pela primeira vez.

Dois rapazes e suas circunstâncias

Thor – Eis um desafio que a maioria de nós nunca vai ter que enfrentar: educar um menino que nasceu bilionário para tornar-se um adulto responsável e decente. Como se cria um bilionário? Como ajudamos alguém que sabe que não vai precisar trabalhar para viver a ser um sujeito com sonhos e ambições próprios?

Como fazê-lo respeitar as regras que valem para todos se sua vida é tão diferente das outras? Como ensiná-lo a enfrentar os olhares de inveja e interesse despertados pela condição, alheia a sua vontade, de ter nascido tão rico em um país tão desigual?

Aos 20 anos, Thor não é apenas o filho mais velho do bilionário com a beldade: ele é um experimento pedagógico ambulante. Se Eike e Luma conseguiram educá-lo para ser um homem digno da fortuna que herdará, renova-se a nossa fé na capacidade dos homens de superarem e transcenderem suas circunstâncias – na fartura e na miséria, a pé ou de Mercedes.

Meu juízo classe média me assopra que meninos de 20 anos e seus hormônios traiçoeiros não deveriam lidar com carros mais potentes do que a sua capacidade de discernimento e autocontrole. Mas, apesar do carro importado, dos advogados caros, do pai falastrão e das falhas da Justiça, que nem sempre trata ricos e pobres do mesmo jeito, Thor não merece ser julgado e condenado apenas pelas aparências.

Nem ele nem os meninos magrelas e pardos, sem nomes de deuses nórdicos ou pinta de galã, que precisam conquistar todos os dias o direito de contrariar os estereótipos.

O menino de Santo Ângelo – Nas reportagens, seu rosto e seu nome não aparecem, mas sua história anônima é parecida com a de muitos outros meninos de 15 anos – pelo menos 10% da população, segundo as estatísticas. Diferentemente da maioria, porém, esse menino não se escondeu.

Meu juízo classe média teria aconselhado o guri a ficar na dele, discreto, evitando chamar atenção para si ou para o fato de ter descoberto, já aos 13 anos, que gostava de meninos. Mas ele fez tudo ao contrário: contou para os pais logo que pôde e aos colegas de escola na primeira oportunidade. As consequências foram as previsíveis: isolamento, gozação e depois violência física. Foi demais para ele – garotos de 15 anos tendem a superestimar sua capacidade de enfrentar adversidades. E o menino pensou em se matar.

O fato de ter pais amorosos e esclarecidos deve ter pesado para que ele desse mais valor à própria vida. Em vez de punir a si mesmo, botou a boca no trombone, reclamou, pediu ajuda, se expôs.

O filho de Eike, o menino de Santo Ângelo e todos nós somos produtos das nossas escolhas e das nossas circunstâncias. No caso do garoto gaúcho, sua coragem e seu pedido de ajuda podem ter servido para que outros garotos percebam que não estão sozinhos e que não devem desistir de denunciar a violência e a intolerância – mesmo que demore um pouco até serem ouvidos.

Contrariando o bom senso, ele tornou-se um pequeno herói da resistência. Thor, por sua vez, vai ter que provar que, diante da primeira grande adversidade da sua vida, também saberá transcender suas circunstâncias – agindo como homem, e não como herdeiro.

1 note

Comedias do amor

Uma boa história de amor é sempre uma história de antagonismo: dos personagens entre si, dos personagens e suas circunstâncias, do amor vivido com o amor imaginado. Amores improváveis, tempestuosos ou mesmo impossíveis são os únicos que valem a pena ser contados – os outros podem até fazer um certo sucesso na vida real, mas em geral rendem péssima ficção.

Se as histórias de amor são menos sobre o apaixonamento em si, que não comporta tantas variações assim, do que sobre aquilo que se coloca entre os amantes e a felicidade futura, as histórias românticas são tão sedutoras e envolventes quanto são complexos os motivos que tornam esses amores complicados: famílias rivais (Romeu e Julieta), compromissos de honra (Tristão e Isolda) ou mesmo a morte (Dante e Beatriz).

O amor de um herói por sua musa pode não ter mudado tanto assim desde que Ulisses percebeu que as distrações do caminho não eram tão interessantes quanto a sua amada Penélope, mas as circunstâncias de cada época costumam desempenhar um papel decisivo no tipo de obstáculos que se interpõem entre os amantes. Um grande amor é sempre particular e histórico ao mesmo tempo.

Quem analisar a evolução dos enredos das comédias românticas no cinema, do clássico Aconteceu Naquela Noite (1934) às obras completas de Jennifer Aniston, vai descobrir como essas histórias despretensiosas são testemunhos relativamente confiáveis não apenas da moral e dos costumes de uma época, mas também sobre tudo aquilo que ainda está instável e não completamente assimilado pela classe média que vai ao cinema no sábado à noite.

Mulheres saindo de casa para trabalhar, casais de classes sociais diferentes, sexo antes do casamento, tudo isso foi retratado (e exorcizado) nas comédias românticas, até o momento em que as novidades foram devidamente assimiladas e incorporadas (ou não) ao novo código de comportamento vigente.

Houve um tempo em que as comédias românticas tiravam sua graça de diálogos de duplo sentido em que o sexo era não mais do que uma sugestão apimentada. Em Aconteceu Naquela Noite, nada realmente acontece, mas a cena em que Clark Gable e Claudette Colbert dividem um quarto separados apenas por um lençol carrega uma enorme carga de erotismo sugerido.

Nos últimos anos, a ginástica sexual quase explícita tornou-se banal no cinema, enquanto o amor romântico e exclusivo foi sendo empurrado para arena dos desejos quase impossíveis – algo como morar de frente para o Central Park ou receber uma herança de uma tia rica. Nesse mundo em que o amor ficou mais complicado (e raro) do que o sexo, um dos temas recorrentes das comédias românticas tem sido a possibilidade de viver as experiências do amor tradicional sem o correspondente investimento afetivo.

Filmes como Amizade Colorida (Friends with Benefits) e Sexo sem Compromisso (No Strings Attached) falam de parceiros que dividem a cama, mas não as complicações e as DRs. Outros como Coincidências do Amor (The Switch) e Solteiras com Filhos (Friends With Kids) mostram amigos que procriam juntos, evitando o casamento, mas não a experiência de ter filhos.

A comédia romântica tradicional, do tipo casal se encontra e inventa um sonho de futuro, anda cada vez mais próxima da ficção científica – ou do filme de época.